ActionCOACH Porto

Trabalhamos 39,7 horas por semana e produzimos menos: o problema não são as horas

Portugal tem uma das semanas de trabalho mais longas da União Europeia e uma das produtividades mais baixas. Este artigo mostra porque é que a resposta está nos sistemas da empresa e não em mais horas.

Por António Ribeiro, Master e Business Coach · · 5 min de leitura

Em resumo

Portugal tem uma das semanas de trabalho mais longas da União Europeia e uma das produtividades mais baixas. Este artigo mostra porque é que a resposta está nos sistemas da empresa e não em mais horas.

Fontes: PORDATA

Segundo a PORDATA, com dados do Eurostat, em 2025 Portugal trabalhou em média 39,7 horas por semana, o 5.º valor mais alto da União Europeia. A média europeia ficou nas 37 horas. Nos Países Baixos trabalham-se 31,5 horas, na Dinamarca 33,6 e na Alemanha 34,8. E, no entanto, a produtividade do trabalho em Portugal foi, em 2024, de 47,7 mil euros por trabalhador, a 19.ª mais baixa da UE.

Trabalhamos mais e produzimos menos. Nos meus anos de coaching vejo este padrão repetir-se dentro das empresas, não só nas estatísticas: o empresário que chega primeiro e sai por último, a equipa sempre ocupada, e no fim do mês a margem não aparece. A conclusão é desconfortável mas útil: o problema raramente são as horas. O problema é o que se faz com elas.

O que os números dizem realmente

Há três dados da PORDATA que convém ler em conjunto:

  • Horas: 39,7 horas semanais em 2025, contra 37 horas na média da UE.
  • Produtividade por trabalhador: 47,7 mil euros em 2024. A Irlanda chega aos 194,4 mil euros; a Bulgária fica nos 26 mil.
  • Produtividade por hora trabalhada: 66,9 em 2025, com a UE27 igual a 100.

O terceiro número é o mais revelador. Quando se divide o valor produzido pelas horas, ficamos a cerca de dois terços da média europeia. Se a solução fosse trabalhar mais, já estaríamos à frente. Não estamos, porque cada hora adicional, numa empresa sem processos claros, rende cada vez menos.

Como engenheiro, gosto de olhar para isto como um sistema. Uma máquina que trabalha mais tempo mas com perdas elevadas não fica mais eficiente por funcionar mais turnos. Fica mais gasta. Com as empresas passa-se o mesmo.

Onde se perdem as horas numa PME

Quando analiso uma semana típica de uma pequena empresa, as perdas aparecem quase sempre nos mesmos sítios:

  • Retrabalho: tarefas refeitas porque ninguém definiu como deviam ser feitas à primeira.
  • Decisões centralizadas: tudo passa pelo dono, que se torna o gargalo da empresa.
  • Reuniões sem objetivo: encontros longos que terminam sem responsável nem prazo.
  • Interrupções constantes: telefonemas, mensagens e pedidos urgentes que partem o dia em fragmentos de dez minutos.
  • Trabalho sem medida: ninguém sabe se a semana foi boa ou má, porque não há indicadores.

Nenhuma destas perdas se resolve com mais horas. Pelo contrário, as horas extra escondem-nas. Enquanto a equipa compensa com esforço, o sistema nunca é corrigido.

Produtividade é um resultado de sistemas

Na metodologia ActionCOACH falamos dos 6 passos do sucesso empresarial: Mestria, Nicho, Alavancagem, Equipa, Sinergia e Resultados. A produtividade vive sobretudo no terceiro, a Alavancagem. Alavancar significa fazer com que o mesmo esforço produza mais resultado, através de processos documentados, ferramentas adequadas e responsabilidades claras.

Imagine uma empresa hipotética de 12 pessoas que fatura 1,2 milhões de euros por ano. São 100 mil euros por pessoa. Se essa empresa reduzir o retrabalho e as interrupções o suficiente para libertar duas horas por pessoa por semana, não precisa de contratar ninguém para crescer. Ganha capacidade equivalente a mais de meia pessoa a tempo inteiro, sem custo salarial adicional. Num ano em que o salário mínimo passou para 920 euros, segundo a PORDATA, esta diferença conta.

O objetivo final é aquilo a que chamamos um negócio comercial e lucrativo que funciona sem si. Um negócio assim não depende de o empresário estar presente 60 horas por semana. Depende de sistemas que funcionam todos os dias, com ou sem ele.

Como medir a produtividade na sua empresa

Não se melhora o que não se mede. Antes de mudar qualquer coisa, proponho três indicadores simples:

  • Faturação por pessoa: volume de negócios anual dividido pelo número de pessoas a tempo inteiro. É a versão interna do número da PORDATA.
  • Margem bruta por hora: margem bruta do mês dividida pelo total de horas trabalhadas. Mostra se cada hora gera valor.
  • Taxa de retrabalho: percentagem de tarefas, encomendas ou projetos que tiveram de ser corrigidos.

Registe estes valores todos os meses, numa folha simples. Ao fim de três meses terá uma linha de base e saberá se as mudanças que fez estão a resultar. Os números tiram a discussão do campo das opiniões.

Cinco passos para trabalhar menos horas com mais resultado

  • 1. Registe uma semana real. Peça a cada pessoa, incluindo a si próprio, que anote em blocos de 30 minutos o que fez. Sem julgamentos, só dados.
  • 2. Identifique as três maiores perdas. Retrabalho, esperas, interrupções. Escolha as que consomem mais horas.
  • 3. Documente o processo crítico. Escolha o processo que mais retrabalho gera e escreva, numa página, como deve ser feito. Passo a passo, com responsável.
  • 4. Delegue uma decisão por semana. Defina critérios claros e passe essa decisão para quem está mais perto do problema.
  • 5. Reveja os indicadores com a equipa. Uma reunião curta, semanal, com números à vista. É aqui que entra a accountability: cada pessoa sabe o que se comprometeu a fazer e presta contas.

Estes passos parecem simples, e são. A dificuldade não está em percebê-los, está em mantê-los durante semanas seguidas, quando o dia a dia empurra tudo de volta para o hábito antigo. É por isso que o acompanhamento externo faz diferença.

O que fazer esta semana

Escolha um dia desta semana e registe, de meia em meia hora, o que fez. No fim do dia, marque cada bloco com uma de três letras: V se criou valor para o cliente, S se foi suporte necessário, P se foi perda. Some os blocos P. Esse número é o seu ponto de partida, e quase sempre é maior do que esperava.

Se quiser olhar para os números da sua empresa com outra perspetiva, a equipa ActionCOACH Porto está disponível para uma conversa. No Coaching 1:1 ou no Workshop: Planeamento 90 Dias trabalhamos precisamente isto: transformar horas em resultados previsíveis.

Fontes

Sobre o autor

António Ribeiro, Master e Business Coach. O Business e Executive Coach com mais horas de business coaching em Portugal. Master Franchiser da ActionCOACH e da Engage and Grow. Professor na FEUP durante 38 anos, Doutor e Mestre em Engenharia Mecânica. Transforma empresas com crescimento irregular em negócios previsíveis e com margem, através de sistemas, métricas e accountability.

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